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[Venenum Saltationes] O Duende

por Hölle Carogne



A primeira vez que ouvi falar do “Duende” foi na Palestra da Lucy Linck, no “I Encontro Ventre Poa/RS”. Achei tão interessante que resolvi dar uma pesquisada no assunto e agora compartilho com vocês do Aerith Tribal Fusion Blog! Espero que gostem!

"Tero Duende" é uma expressão bastante conhecida no universo do Flamenco. O conceito foi utilizado pela primeira vez em 1922, por Federico Garcia Lorca, no texto “Juego y Teoríadel Duende”. Esta expressão, originalmente, fazia referência apenas à arte andaluza. Hoje, porém, ela já caracteriza outras formas de arte.

“O Duende”seria um“espírito de evocação”,um estado elevado de emoção, expressão e autenticidade. Ter o duende é semelhante a ter alma.


O duende vem de dentro como uma resposta física/emocional do artista. É o que causa calafrios, aquilo que faz sorrir ou chorar como uma reação corporal para uma performance artística que é particularmente expressiva. O duende é um “fazer arrebatar”, é a alma e a essência da arte.

O poeta alemão, Johann Wolfgang Von Goethe definiu o duende como um poder misterioso que todos sentem e nenhum filósofo explica.

O duende é um dom, essência pura que brota da alma do artista. Você não pode domesticá-lo ou controla-lo. O duende nasce sozinho. Você tem ou não tem.



Para Nick Cave, Lorca tenta lançar alguma luz sobre a tristeza estranha e inexplicável que vive no coração de certas obras de arte ("Tudo o que tem de som escuro tem duende") Para Nick, BobDylan, Leonard Cohen, Van Morrison, Tom Waits e Neil Young podem invocar o duende. De acordo com o músico, o duende é demasiado frágil para sobreviver à brutalidade da tecnologia e da crescente aceleração da indústria da música. Para ele talvez não haja dinheiro na tristeza; não existem dólares no duende. “A Melancolia odeia a pressa e flutua em silêncio.”

Todas as canções de amor devem conter duende. Para criar uma canção de amor é necessário não estar realmente feliz. Em primeiro lugar, é necessário abraçar o potencial da dor. A canção de amor deve entrar em ressonância com o sussurro de tristeza e luto.
O escritor que se recusa a explorar as regiões mais escuras do coração nunca vai ser capaz de escrever de forma convincente sobre a maravilha, a magia e a alegria do amor, pois dentro do tecido da canção de amor, dentro de sua melodia, de sua letra, deve-se perceber um reconhecimento da sua capacidade de sofrimento.

Selecionei alguns trechos do texto “Teoria e Prática do Duende” de García Lorca, mas sugiro à todos que leiam todo o material se tiverem interesse no assunto, pois é maravilhoso.



“Em toda Andaluzia, as pessoas falam constantemente do duende e o descobrem naquilo que sai com instinto eficaz.Manuel Torres, disse, esta esplêndida frase: ‘Tudo o que tem sons negros tem duende’. E não há nada mais verdadeiro.

Esses sons negros são o mistério, as raízes que penetram no limo que todos conhecemos, que todos ignoramos, mas de onde nos chega o que é substancial em arte.  Sons negros, disse o homem popular da Espanha, e coincidiu com Goethe, que define o duende ao falar de Paganini, dizendo: ‘Poder misterioso que todos sentem e nenhum filósofo explica’.

Assim, pois, o duende é um poder e não um obrar, é um lutar e não um pensar.  Eu ouvi um velho violonista dizer: ‘O duende não está na garganta; o duende sobe por dentro a partir da planta dos pés.’  Ou seja, não é uma questão de faculdade, mas de verdadeiro estilo vivo; ou seja, de sangue; ou seja, de velhíssima cultura, de criação em ato.


O duende de que falo, obscuro e estremecido, é descendente daquele alegríssimo demônio de Sócrates, mármore e sal que o arranhou indignado no dia em que tomou a cicuta, e do outro melancólico demoniozinho de Descartes, pequeno como amêndoa verde, que, farto de círculos e de linhas, saiu pelos canais para ouvir cantarem os marinheiros bêbados.

Todo homem, todo artista, dirá Nietzsche, cada degrau que sobe na torre de sua perfeição é às custas da luta que trava com um duende, não com um anjo, como se diz, nem com sua musa.  É preciso fazer essa distinção fundamental para a raiz da obra.

O anjo guia e presenteia, defende e evita, previne.

O anjo deslumbra, mas voa sobre a cabeça do homem, está acima, derrama sua graça, e o homem, sem nenhum esforço, realiza sua obra, ou sua simpatia, ou sua dança. 

A musa dita, e, em algumas ocasiões, sopra.  Pode relativamente pouco, porque já está distante e tão cansada (eu a vi duas vezes) que teve que colocar meio coração de mármore.  Os poetas de musa ouvem vozes e não sabem de onde elas vêm; são da musa que os alenta e às vezes os merenda.  A musa desperta a inteligência, traz paisagem de colunas e falso sabor de lauréis, e a inteligência é muitas vezes a inimiga da poesia, porque imita demasiadamente, porque eleva o poeta a um trono de agudas arestas e o faz esquecer que logo podem comê-lo as formigas ou pode cair-lhe na cabeça uma grande lagosta de arsênico, contra a qual nada podem as musas que há nos monóculos ou na rosa de tíbia laca do pequeno salão.


Anjo e musa vêm de fora; o anjo dá luzes e a musa dá formas (Hesíodo aprendeu com elas).  Pão de ouro ou prega de túnicas, o poeta recebe normas no bosquezinho de lauréis. 

Ao contrário, o duende tem que ser despertado nas últimas moradas do sangue.
A verdadeira luta é com o duende.

Para buscar o duende não há mapa nem exercício.  Só se sabe que ele queima o sangue como uma beberagem de vidros, que esgota, que rechaça toda a doce geometria aprendida, que rompe os estilos, que faz com que Goya, mestre nos cinzas, nos pratas e nos rosas da melhor pintura inglesa, pinte com os joelhos e com os punhos com horríveis negros de betume; ou que desnuda Mosén Cinto Verdaguer com o frio dos Pirineus, ou leva Jorge Manrique a esperar a morte no páramo de Ocaña, ou veste com uma roupa verde de saltimbanco o corpo delicado de Rimbaud, ou põe olhos de peixe morto no conde Lautréamont na madrugada do Boulevard.

A chegada do duende pressupõe sempre uma transformação radical em todas as formas sobre velhos planos, dá sensações de frescor totalmente inéditas, com uma qualidade de rosa recém criada, de milagre, que chega a produzir um entusiasmo quase religioso.

Há anos, em um concurso de baile de Jerez de La Frontera, quem ganhou o prêmio foi uma velha de oitenta anos, contra formosas mulheres e meninas com a cintura de água, pelo simples fato de levantar os braços, erguer a cabeça e dar um golpe com o pé sobre o tablado; mas na reunião de musas e de anjos que havia ali, belezas de forma e belezas de sorriso, tinha que ganhar e ganhou aquele duende moribundo que arrastava pelo chão suas asas de facas oxidadas.


Todas as artes são capazes de duende, mas onde ele encontra maior campo, como é natural, é na música, na dança e na poesia falada, já que elas necessitam de um corpo vivo que interprete, porque são formas que nascem e morrem de modo perpétuo e alçam seus contornos sobre um presente exato.

Todas as artes, e também os países, têm capacidade de duende, de anjo e de musa; e assim como a Alemanha tem, com exceções, musa, e a Itália tem permanentemente anjo, a Espanha é em todos os tempos movida pelo duende, como país de música e dança milenares, onde o duende espreme limões de madrugada, e como país de morte, como país aberto à morte.

O duende não chega se não vê possibilidade de morte, se não sabe que ela há de rondar sua casa, se não tem segurança de que há de balançar esses ramos que todos carregamos e que não têm, que não terão consolo.

Com ideia, com som ou com gesto, o duende gosta das bordas do poço em franca luta com o criador.  Anjo e musa escapam com violino ou compasso, e o duende fere, e na cura dessa ferida, que não se fecha nunca, está o insólito, o inventado da obra de um homem.

Dissemos que o duende ama a orla, o limite, a ferida, e se aproxima dos lugares onde as formas se fundem em um anelo superior a suas expressões visíveis.



O duende opera sobre o corpo da bailarina como o vento sobre a areia.  Transforma com mágico poder uma garota em paralítica da lua, ou enche de rubores adolescentes um velho roto que pede esmola pelas tendas de vinho, dá aos cabelos um cheiro de porto noturno, e em todo momento opera sobre os braços com expressões que são mães da dança de todos os tempos.

E é impossível que ele se repita, isso é muito interessante de sublinhar.  O duende não se repete, como não se repetem as formas do mar na tempestade.

Cada arte tem, como é natural, um duende de modo e forma distintos, mas todas unem suas raízes em um ponto de onde manam os sons negros de Manuel Torres, matéria última e fundo comum incontrolável e estremecido de lenho, som, tela e vocábulo.

Sons negros por trás dos quais estão já em terna intimidade os vulcões, as formigas, os zéfiros e a grande noite apertando a cintura com a Via Láctea.

Senhoras e senhores; ergui três arcos e com mão torpe coloquei neles a musa, o anjo e o duende.



A musa permanece quieta; pode ter a túnica de pequenas pregas ou os olhos de vaca que miram em Pompéia o narizinho de quatro caras com que seu grande amigo Picasso a pintou.  O anjo pode agitar cabelos de Antonello de Mesina, túnica de Lippi e violino de Massolino ou de Rousseau.

O duende...  Onde está o duende?  Pelo arco vazio entra um ar mental que sopra com insistências sobre as cabeças dos mortos, em busca de novas paisagens e acentos ignorados; um ar com cheiro de saliva de menino, de erva pisada e véu de medusa que anuncia o constante batismo das coisas recém criadas.”

In Federico García Lorca.  Obras Completas.  Ed. Aguillar.  Tradução: Roberto Mallet.




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