[Vida com Yoga] Posturas: Paschimottanasana

por Natane Circe

A paschimottanasana, ou alongamento intenso das costas, é talvez o asana mais executado por praticantes ou não praticantes de yoga, pois alonga toda a posterior do corpo e alivia tensões acumuladas durante o dia. Além disso, permite que a energia vital se espalhe por todo o corpo.



Entre seus benefícios físicos estão o alongamento dos órgãos abdominais, melhora a circulação sanguínea, aumentando assim a irrigação no cérebro, diminui a adiposidade no abdômen, além de estimular os órgãos reprodutores.

A postura da pinça como é comumente chamada, também trabalha em favor de bailarinas e bailarinos por aumentar a flexibilidade do quadril, alongar o músculo do dorso e das pernas e servir de compensação para treino de cambrês, ou movimentos muito intensos de extensão de coluna. Recomenda-se a postura para casos de lordose ou escoliose.

O Asana também tem um efeito calmante, relaxante, aquietando a atividade do lobo frontal e mantendo alerta o lobo occipital meditativo. Descansando e massageando o coração.

Ativando o seu segundo chakra, localizado onde acontece a flexão, a paschimottanasana desperta a capacidade de se render por completo, entrando em contato com as suas emoções mais intensas, as quais geralmente armazenamos nos músculos posteriores. Ao mesmo tempo, trabalha com uma sensualidade intimista, de você para você mesmo.

O terceiro chakra também é trabalhado, aumentando o fogo digestivo e tonificando os órgãos internos.


Como montar a postura:

- Sentado, com as pernas estendidas e unidas paralelamente, alongue os calcanhares e alinhe a coluna perpendicular ao chão;

- Eleve os braços acima da cabeça na inspiração;

- Exale levando os braços na direção dos pés, segure os dedões dos pés com os dois primeiros dedos da mão. Se a mão não chegar ao pé, segure até onde seu corpo permitir (joelho, tornozelos);



- Pressione as coxas contra o chão;

- Avance a frente aos poucos, cedendo a cada exalação e pressionando o umbigo pra dentro;

- Se você já tem uma flexibilidade avançada, se permita a descer cada vez mais, segurando seu punho por de trás dos pés e repousando a testa nos joelhos e futuramente na direção das canelas.



“A intensidade do alongamento deve aumentar e se renovar a todo o momento.” Iyengar




[Resenhando Internacional] TribaLX 2017

por Sara Félix



O Contato
               
Existe dentro de mim uma admiração profunda pelo estilo de Piny Orchidaceae. Há alguns anos que venho investigando a linguagem artística dela, a partir de pesquisas em materiais desenvolvidos através de suas próprias teorias e processos criativos dentro da contemporaneidade. O pressuposto cálculo da companhia da Piny visa entender que toda relação estética deve dialogar com o ensino e aprendizagem para que haja uma transformação em palco. De fato, isso me torna sempre curiosa e expecta de seu trabalho.

Poder trabalhar ao seu lado despertou em mim um enorme entusiasmo. Após o contrato assinado para apresentar meu trabalho no TribaLX 2017, iniciou-se uma realização profissional sem tamanho.


Eurotrip


Embarco desta vez com meu marido par uma deliciosa viagem. Não é sempre que se pode ir a Europa, portanto, nada mais justo que aproveitar a ida para Portugal e conhecer os países vizinhos. Despedimo-nos de nosso verão aqui no Brasil para passarmos dias congelantes em Amsterdam.

“Amsterdam é a capital de almas perdidas em busca da liberdade”.  Uma cidade singela com propostas que registram a soberania e iniciativa independente. Ter a oportunidade de conhecer Amsterdam me manteve acesa e inspirada por todo o restante da trip. Após quatro dias partimos para Bruxelas (Bélgica) e na sequencia Paris (França). Tentar resumir Paris é algo impossível. Ela é pecuniosa em arte e cultura. Uma cidade de muitas descendências e etnias. Pudemos aproveitar bastante à viagem, porém, digo a quem quiser que cinco dias em Paris não são suficientes. Enfim iniciamos a viagem para Lisboa (Portugal) e chegamos ao nosso destino; meu coração palpitava e meu corpo já sentia sede de dança.


The Meet & Greet


A primeira noite do evento foi reservada para um jantar de confraternização entre artistas do festival. Meu primeiro contato com Piny foi realmente especial; ao chegar ao restaurante Royal Palace, fomos recebidos por Silvia e Cris, ambas, professoras da companhia Orchidaceae. Piny então surpreendeu me abordando pelas costas, e me fazendo atuar com ela em uma exibição divertida no palco que havia neste restaurante. Levou-me para o camarim e lá nos produzimos com figurinos engraçados; subimos no palco com a música “I Will Survive” e criamos uma brincadeira improvisada de forma a levar o espectador cair na gargalhada.

Entre bons “papos” com Piny, Cris, Sophia, Kenzi, Leo, Moony e Mat Jacob, pude esclarecer melhor minha visão sobre esta comunidade (Elas são demais)!  Logo mais me convidaram a sentar ao lado de April Rose, Gudrun Herold e Mell Tribal Bounce em uma mesa reservada para as quatro bailarinas internacionais. Uma mesa enérgica e cheia de expectativa com experiências fantásticas; ainda nesta mesa participamos de uma breve entrevista feita por Ricardo Duto.



Ensinamentos com April Rose


Concluindo a noite receptiva retornei ao hotel, empolgada para o segundo dia do festival. Na manhã de sexta-feira, April deu início às primeiras aulas e com sabedoria nos revelou histórias aprofundadas partindo de várias referências e acervos que foram analisadas através de um powerpoint. Apresentou-nos fundamentos, gerações e nos indicou diversas fontes de estudo, nos oferecendo conexões e possibilidades infinitas. “Sabemos que o campo da dança é vasto e que devemos nos comunicar em diferentes direções.” A partir do vocabulário de April minha cabeça entrou em órbita tamanha dedicação que esta mulher tem para alimentar seus ensinamentos.

No dia seguinte tivemos mais um encontro com April, sendo uma aula tranquila sem divisões de níveis. O processo de atividades eram compostas por sequências coreográficas conduzidas de uma forma equilibrada. Cada elemento interligava-se a processos criativos, desencadeando linguagens em ferramentas necessárias para o meu vocabulário.

Durante o período da tarde aconteceram outros workshops, no entanto, preferi retornar ao hotel para me recompor e me organizar para a mais esperada noite do evento.

A Banca


Este foi um dia excitante para mim, me considero uma pessoa extremamente viciada em dança tribal e em tudo que gira em torno dela. Na noite de sexta-feira aconteceu a competição e o hafla pelo qual fiz parte da banca de análise ao lado de April, Gudrun e Mell. Eu amo assistir aos haflas e observar evoluções decorrentes de esforços, apreciar a perspectiva de cada dançarina e mergulhar na concepção do cenário, figurino e interpretação. Alunas dividiram seu espaço de dança para diluírem suas experiências e interesses artísticos. Notava-se ainda que algumas quebravam barreiras enquanto outras saíam da zona de conforto para se desafiarem; à vista disso tive um panorama de dançarinas com muita auto confiança.

O estilo moderno contemporâneo trazido da região explorou variedades, contrastes e unidade de composições que tornaram a noite muito interessante. Além de instrumentos percussivos, a competição ofereceu dinâmicas pertinentes. O mais admirável foi constatar que todas as dançarinas se apresentaram com um preparo íntegro, assim como no hafla.
Mooni Orchidaceae foi a primeira colocada na competição desta memorável noite conseguindo destacar uma linguagem madura. Analisar um corpo sensível em transformação técnica me fizeram repensar e me auto criticar enquanto professora.


O Espetáculo


O gala show compõe de artistas com identidades formadas que influenciam positivamente alunos e expectadores. Entender tecnicamente como se produz um espetáculo de dança, deve-se no mínimo exercer contribuições e parâmetros que resultam em um bom trabalho. A equipe Orchidaceae garantiu ao expectador uma produção devidamente correta, mostrando seus valores e ética de forma profissional.


Nos bastidores não poderia ser diferente, aliás me emociona falar de instantes como este. Momentos de troca num processo de desafio particular no entanto, todos com objetivos incomum. Muito profissionalismo também entre artistas que se concentram coletivamente em prol do espetáculo. “É realmente incrível estar envolvida nessa energia.” Cada minuto dentro de um camarim resulta em mais uma bagagem nos meus propósitos de dança que me auxiliam tanto como educadora quanto aluna. O capricho é notável em todos os detalhes entre produção cênica, luzes, som... E as dançarinas com seus figurinos, maquiagens e adornos. Procedendo então em uma obra de arte que é um espetáculo de dança.


A Aula


Enfim, o dia do meu workshop chegou. Acordei com muita alegria e contando os minutos para lecionar a prática das minhas vivências. Meu workshop baseava-se em uma aula sequencial com o objetivo da qualificação técnica para reestruturar novos combos. Abordei nesta aula a leitura corporal simétrica para laborar um transporte técnico nos demais conjuntos de movimentos. Gosto de aulas dinâmicas e trabalhos em coletivo, no final da aula formei pequenos grupos para desenvolver alternativas de movimentos, novas estratégias, cooperação, comunicação, planejamento e raciocínio lógico. Foram duas horas de trabalho, respeito, evolução e cautela que permitia a linha de aprendizado de cada indivíduo.

Enquanto professora e educadora gosto de frisar que devemos ser observadoras não apenas com os alunos(a), mas observar o que nós mesmas temos a oferecer para o aluno de acordo com sua necessidade. O processo de aprendizado requer oportunidades para ampliar seu desenvolvimento, portanto é necessário estabelecer diálogos entre o aluno e o professor.

Ao longo desta deliciosa viagem à Europa pude desfrutar de muitas culturas e artes que me deixaram entusiasmada. Participar internacionalmente como professora é uma jornada relevante na minha carreira e sou eternamente grata a Piny Orchidaceae por acreditar no meu trabalho e tornar possível esta experiência. Obrigada Lisboa por me despertar novos âmbitos.



[Resenhando-MG] Up Up Fest 2016

por Raissa Medeiros


Aconteceu nos dias 12 e 13 de novembro de 2016 em Belo Horizonte, a 3ª edição do evento  Up Up Fest - Encontro Tribal em Minas Gerais, idealizado por Thalita Menezes, com 12 horas de imersão,com 4 professores e 6 cursos. 



No dia 12, tivemos aulas com:



- Joline Andrade (Bahia) com o tema: “O que é Dança do Ventre Tribal?";

- Mariana Razzi (Minas Gerais) com o tema: “Corpo em Fusão: Os traços expressivos do Flamenco no ATS® (American Tribal Style®) e na Dança do Ventre Tribal”;

-Thalita Menezes (Minas Gerais) com o tema: “As bases do ATS® (American Tribal Style®) e sua contextualização para a Dança do Ventre Tribal”.


E no dia 13 tivemos:


- Joline Andrade: “O Tribal Fusion e a Liberdade Expressiva”;



-Brendo Brier (Minas Gerais): “Estilo Tribal de Rua – Uma possibilidade”;


- Thalita Menezes: “A minha, a sua, a nossa Dança”


Foto:Mariela Cardilo

Foram workshops enriquecedores, muita prática, muita teoria, muita novidade e muita entrega. Realmente uma imersão!


Ao final do evento, tivemos o Up Up Show, onde ocorreram várias apresentações dos professores e inscritos.


Para o show escolhi uma música com a qual sou apaixonada e que me dá uma sensação gostosa de liberdade, dessa forma, escolhi levar um improviso. Confere aí:









Abaixo a playlist completa com todas as apresentações:




Foi um final de semana de muita troca e aprendizado.


Raissa Medeiros,Joline Andrade e Brendo Brier | Foto:Mariela Cardilo



Se quiser saber mais sobre o Up Up Fest - Encontro Tribal em Minas Gerais,o que é/como é e edições anteriores, é só acessar a página do Facebook:

[Entrando na Roda] O fim do ATS® Homecoming e a criação do ATS® Reunion

por Natália Espinosa



O ano de passado foi financeiramente difícil para muita gente, e para a nave-mãe do ATS® não foi diferente. Foi o ano em que foi anunciado o fim do ATS® Homecoming.

Sim, isso mesmo. 2017 foi o último ano de ATS® Homecoming.

Mas calma! Não se desespere. Primeiro, vamos entender o que era o ATS® Homecoming e, principalmente, o motivo deste nome.

O ATS® foi criado e desenvolvido em San Francisco, California. Trata-se de uma cidade com uma borbulhante vida cultural e nichos alternativos, onde várias tribos se sentem à vontade e onde há relativa aceitação à diversidade - um contexto bem condizente com a comunidade do ATS®. O também extinto FCBD® Studio se localizava em SanFran. Por todos esses motivos, a cidade foi eleita o cenário ideal para uma conferência internacional anual de ATS® e o nome, ATS® Homecoming (traduzido como Retorno ao lar, Volta pra casa, um conceito bem solidificado entre os americanos) parece ter surgido naturalmente.
Nos anos de 2015, 2016 e 2017, este evento foi uma oportunidade para dançarinos de ATS® do mundo inteiro conhecerem o berço do ATS®, entrarem em contato com Carolena e o FCBD®, confraternizarem, estudarem e reciclarem seus conhecimentos e vivenciar o estilo de vida ATS®. O ATS® Homecoming foi uma experiência maravilhosa para todos os que tiveram a oportunidade de vivenciá-lo. Eu estive lá nas edições de 2015 e 2016, e posso dizer que foi um bálsamo para minha relação com minha dança e com a comunidade tribal.


Em novembro de 2016, no entanto, foi publicado um pequeno texto na página do evento, traduzido aqui em sua maioria por mim:

“É com tristeza que anunciamos que 2017 será nosso ultimo ano em San Francisco realizando o ATS®® Homecoming.  Nós gostamos muito de celebrar o American Tribal Style® em seu berço.  Porém, após muito deliberar, Carolena e Terri decidiram que é simplesmente caro demais fazer uma conferência em San Francisco.

Nós realmente amamos a comunidade e a oportunidade de celebrar anualmente com todos vocês. Então, de 18 a 21 de janeiro de 2018, nós trazemos a você o ATS®® Reunion (n.t.:Reunião).  O tema do primeiro ano é “Home is Where the Heart Is” (n.t.:“O Lar é Onde Está o Coração”) porque, indepentente de onde nos reunamos, o Lar é onde encontramos uns aos outros. O ATS®® Reunion ocorrerá no KCI Expo Center no Kansas, Missouri.  Nós teremos o KCI Expo Center só para nós e seu hotel com mais espaço para participantes, expositores e festas!

O fim de semana ainda oferecerá excelentes professores, expositores maravilhosos, shows incríveis e uma comunidade fantástica. Apenas será chamado por um nome diferente e ocorrerá em um local diferente.


Ou seja, o evento ainda ocorre! Só não faz mais sentido chama-lo de retorno ao lar porque o lar, San Francisco, não sediará o evento todo ano – o que não significa que em algum momento ele não poderá ser a sede do ATS® Reunion. É claro que ir a San Fran fazia parte da graça do Homecoming para quem vem de fora, mas com os preços mais baixos como atrativo e com a promessa de manutenção da qualidade do evento, ainda podemos desfrutar de uma conferência anual digna da comunidade do ATS®, sempre devotada e ávida por conhecimento.

As inscrições para o ATS® Reunion já estão abertas e podem ser feitas na página oficial do evento: http://atsreunion.com/

Vejo vocês lá!

| Fotos do ATS® Homecoming 2017, por The Dancer’s Eye: http://www.thedancerseye.com/


[Ritmos do Coração] Ritmos Árabes

por Fairuza



Olá, tribo! 

Hoje falarei sobre alguns ritmos básicos utilizados no Repertório Clássico do ATS®.

São eles e suas respectivas descrições:

Maksun

DUM tatakata DUM takata



Masmoudi Saghir / Baladi


DUM DUM takata DUM takata




Saide 

DUM tataka DUM DUM takata ou DUM DUM tala DUM DUM takata



Qual é a diferença entre eles?

Para começo, "DUM" é o toque grave do instrumento que dita o ritmo, o Derbak. E "Takata" ou "tak" é o toque agudo.

Bom, se for feita uma análise somente do ritmo, a diferença é simples:

. Maksun possui um DUM no início e no meio da frase musical.

. Masmoudi saghir / baladi possui dois DUNS no início e, somente um DUM  no meio da frase musical.

. Saide possui um ou dois DUNS no início e, OBRIGATORIAMENTE, dois DUNS no meio da frase musical.

Em uma "interpretação Tribal Fusion" você pode dar acentuações com o seu corpo nos DUNS, por estes serem momentos fortes do ritmo.

No ATS®, por ser "mais fechado", os duns e taks interferem menos, restando a bailarina acompanhar o tempo dos três ritmos falados, que são de 4 tempos. Dessa forma, procure fazer uma interpretação mais conecta com o ritmo, escolhendo passos ou combos do ATS® divisíveis por quatro, ou seja, quatro, oito, doze, dezesseis, etc tendo a certeza que você encaixou os passos correntemente na frase musical. 

Beijos e até o próxima. 


[Tribal Brasil] Tribal Brasil de corpo e saia

por Kilma Farias

           

           A saia é uma materialidade bastante presente no universo das danças do Ventre e Tribal. Há muito me inquieto com as possibilidades de formas e movimentos que rascunham um possível feminino poético no espaço, se fazendo corpo juntamente com a bailarina ou bailarino.

            Ao lançar um olhar sobre as histórias da Dança Moderna Americana, encontro possíveis heranças e pontos de interseção. Pontos esses que começo a investigar no corpo enquanto história que se veste no tempo-espaço do movimento.

            As pistas pelas heranças dançadas da saia me levam a quebrar a cronologia para trazer um véu sobre meu olhar à Dança Moderna Americana; a skirt dance.

            A skirt dance deixa rastros na história da dança através do teatro burlesco e vaudeville no final do século XIX e início do XX, apresentando-se como uma forma de dança popular na Europa e América, influenciando o surgimento do can-can francês.

            Longas saias, inicialmente brancas, conferiam uma poética de pureza e feminilidade romântica às bailarinas. Posteriormente as saias foram ganhando inúmeros babados, mas seu manuseio permaneceu presente, embora no can-can as pernas das bailarinas passam a ser o foco principal de ação e a saia passa a assumir uma qualidade de moldura aos movimentos. Essa é uma questão que merece aprofundamento: os trânsitos das danças populares para os cassinos e cabarets através da exacerbação da sensualidade no corpo da mulher. Pois, a compreensão ocidental de gênero que temos hoje, onde o corpo da mulher é objetivado, inclusive nas danças ligadas a uma ideia de feminino, incluindo as danças do Ventre e Tribal, é reforçada nessa época. Por hora, irei apenas margear essa questão a partir do que me interessa na construção do imaginário da saia nas danças que me movem.

            Partindo desse interesse, observei que pioneiras da Dança Moderna Americana vão buscar no Orientalismo europeu e americano do início do século XX as motivações de seus movimentos e poéticas. Em suas formas de atualização e reelaboração, buscam questionar essa dita objetivação da mulher que reforça a desigualdade de gênero; e a saia entra como protagonista de uma assinatura feminina corporal.

            Judith Lynne Hanna (1999, p. 195) em seu livro Dança, Sexo e Gênero, no capítulo que enfatiza padrões de dominação, mais precisamente no texto “Dança para libertação das mulheres” afirma que: Denunciar, desmantelar e criar, coloca a dança moderna como o movimento que trouxe a resignificação do feminino. Esse movimento surge em libertação ao corpo da mulher e como uma “crítica das mulheres ao sistema do século XIX, que as excluía dos principais papéis econômicos e políticos [...] A afirmação e o controle feminino do corpo eram um impulso da crítica das mulheres” (HANNA, 1999, p.196). Embebidas nessa missão, as mulheres fizeram da dança moderna, em parte, um revide contra a dominação masculina vigente, tanto na dança quanto no dia-a-dia.

            Os movimentos pessoais foram colocados em foco e tudo poderia ser motivo de dança, que aconteceria em qualquer lugar, com ou sem música, com qualquer vestimenta, e não mais os espartilhos e sapatilhas que o ballet clássico da época impunha.
Enquanto o século XX progredia, aos poucos os tabus sobre as partes do corpo que podiam ser mostradas desapareceram. Com o advento dos maiôs e de novos movimentos de dança, os espectadores viram o corpo – entrepernas, nádegas, coxas e seios – de todo ângulo possível. (HANNA, 1999, p. 198).


            As precursoras desse movimento foram Loie Fuller, Ruth St. Denis e Isadora Duncan, dentre outras. Meu olhar chega à bailarina americana Ruth St. Denis (1879-1968) atraída pelo seu gosto e interesse pelo exótico. Ao observarmos a trajetória artística de Ruth St. Denis, vamos contemplar uma história de encontro com o espiritual através da dança, indo buscar fonte de inspiração em diversas estéticas a exemplo da egípcia, indiana, flamenca, tailandesa, chinesa, entre outras.

Na sua escola, a Denishawn School em Los Angeles, Califórnia, passaram nomes como Martha Graham e Doris Humphrey, expoentes da Dança Moderna Americana que influenciam até hoje grande parte de bailarinos do Ocidente, contribuindo com técnicas como contração-expansão e queda-recuperação, respectivamente.

Ruth St. Denis ficou conhecida pelos seus solos, a exemplo de Rahda (1909) e The legend of the peacock (1914), onde retratava a “complexidade e autonomia das mulheres.” [1] Esses solos em muito se assemelham à estética do que conhecemos hoje como dança Tribal. “A mistura do físico e da divindade nas coreografias de St. Denis levou que ela estudasse várias religiões ao longo da sua vida. Em sua opinião, a dança era um ritual e uma prática espiritual.” [2]

            “A complexidade e autonomia das mulheres” retratadas por essas bailarinas, na maioria das vezes através de arquétipos de deidades femininas com suas longas saias que se abrem no espaço nos remetem a uma cultura do feminino e suas implicações socio-histórico e antropológicas em diálogo com as discussões sobre gênero.

            Ao pensar os domínios estruturais e ideológicos das relações entre sexos, os historiadores sociais vão dizer que, para além de possíveis definições de papeis entre feminino e masculino, “O gênero se torna, aliás, uma maneira de indicar as construções sociais [...]” (SCOTT, 1990, p.7) bem como um lugar de legitimação de poder, constituindo-se como “uma categoria imposta sobre um corpo sexuado”. (SCOTT, 1990, p. 7).

            Desse modo, esse “corpo sexuado” dentro das danças do Ventre e Tribal propõe transcender sua condição humana buscando na condição de deidade seu poder simbólico para afirmar sua força enquanto feminino; e a saia passa a ser uma materialidade que impulsiona essa transcendência de condição.

            Essa compreensão nos faz perceber que “A história do pensamento feminista é uma história de recusa da construção hierárquica da relação entre masculino e feminino” (SCOTT, 1990, p. 19). E isso consequentemente contribui sobremaneira para a transformação de visão de mundo dos sujeitos, fazendo emergir o que Hall (2011, p. 34) chama de sujeito pós-moderno através do descentramento do sujeito cartesiano.
[...] o feminismo teve também uma relação mais direta com o descentramento conceitual do sujeito cartesiano e sociológico: ele questionou a clássica distinção entre o “dentro” e o “fora”, o “privado” e o “público”. O slogan do feminismo era: “o pessoal é público” (HALL, 2011, p.45).

            Sim, “o pessoal é público”. Penso que nossas inquietações e reflexões mais internas são laboradas através da arte, e isso ganha uma dimensão pública que busca levantar discussões sobre o que se fala e o que é silenciado em nós através de uma investigação em dança, e das materialidades que elencamos para dar corpo e voz às nossas subjetividades como, por exemplo, a saia.


            Outra influência a utilizar saias em seu trabalho é Margaretha Gertruida Zelle (1876-1917), mais conhecida como Mata Hari. Sua contribuição na dança é controversa, uma vez que se destacou muito mais como cortesã do que como bailarina. Suas saias, quando utilizava, traziam transparências, visto que o seminu foi bastante presente em suas composições. E justamente por esse motivo trago-a para essa discussão. Onde a ausência da saia também é um estado de presença dela.

Desse modo, pensar a ausência da saia enquanto lugar de potência para a ação também foi de fundamental importância no processo, visto que a própria vida se constitui dessa forma: presenças e ausências. Na arte não podia ser diferente: a música é feita de som e silêncio, a dança é feita de movimento e pausa. Na nossa própria respiração há um instante entre a inspiração e expiração. Assim, penso que a saia se faz presente tanto mais se procure deixá-la transparente, invisível, como quem funde a saia com o espaço.

            Mata Hari foi condenada à morte por prestar serviço de dupla espionagem para Alemanha e França durante a Primeira Guerra Mundial e fuzilada sem que fosse provada essa acusação.
A exótica espiã Mata Hari, começa sua carreira de bailarina em Java. Lá tomou os primeiros contatos com a cultura oriental. De volta a Europa, percebeu rapidamente que a experiência vivida na Indonésia poderia servir-lhe como trampolim para entrar na alta sociedade europeia, que carecia de exotismo para transcender a penosa situação econômica. Seu mito causa polêmica dado que a personagem Mata Hari se associou mais ao jogo da sedução, usada como arma política e social, do que à evolução da arte da dança. (PASSOS, 2011, p. 204).[3]
           
            Símbolo de ousadia e força do feminino, Mata Hari foi silenciada no corpo e na saia por seu poder simbólico atrelado à sedução. Não penso que “[...] se associou mais ao jogo da sedução, usada como arma política e social, do que à evolução da arte da dança” (PASSOS, 200, p. 204) porque não penso a arte da dança de modo evolutivo, mas simplesmente como um corpo coletivo em constante mudança, dada a condição de impermanência que nos é oferecida nesse planeta.

            Esse pensamento de impermanência me é trazido pelas práticas orientais das quais sou praticante, a kundalini yoga e o budismo. E que venho desenvolvendo em diálogo com o “cuidado de si” em Foucault, pensando a filosofia como espiritualidade, propondo em minha dissertação de mestrado (PPG-CR/UFPB) uma possível Arte de si através da dança Tribal. Essa impermanência é a experiência de ser fluxo no constante presente onde todas as coisas estão em permanente transformação. Desse modo, não há um passado, um presente e um futuro. Assim como não há o desejo de obter nenhum estado de presença na dança, pois isto seria projetar-se no futuro; e só há o presente num constante devir.

            Isso me motiva a utilizar a saia no Tribal Brasil e a transformá-la em diversas formas, passando por algumas citações corporais que me são caras, oriundas das danças populares e afro-brasileiras, mas também de personalidades femininas da história da dança, dando constante nascimento a essa materialidade, atualizando-a. Tenho encontrado na impermanência um modo poético de olhar para a arte e para a história.
Não pense que o tempo apenas foge. Não vejo o fugir como a única função do tempo. Se o tempo apenas fugisse, você estaria separado do tempo. A razão pela qual você não entende claramente o ser-do-tempo é porque pensa no tempo apenas passando. [...] Se o tempo continua indo e vindo, você é o ser do tempo exatamente agora (TANAHASHI, 1993, p. 92).

            Podemos pensar o bailarino como o “ser-do-tempo” quando consegue se manter exatamente no momento de seu gesto, com todos os seus corpos alinhados (físico, mental, emocional, espiritual) e completamente presente na ação constante da mudança. Assim, a percepção da impermanência implica na compreensão de um outro tipo de temporalidade. Por isso, sinto-me à vontade para ir do terreiro de candomblé às brincadeiras de criança, de Loie Fuller à Mata Hari, pois não há uma linha. Ao invés disso, há uma nuvem.

            Quilici (2015, p. 29) aponta para uma qualidade de ser a partir da impermanência e o cuidado de si: o sujeito extemporâneo. E para fundamentar, trás as “considerações extemporâneas” de Nietzsche. Este aponta para que vivamos nossas experiências do presente saindo do nosso tempo, buscando uma visão de estrangeiro em relação ao próprio tempo para que, ao enxergar perto demais não fiquemos cegos pela atualidade. Desse modo, o extemporâneo lança-se “[...] para fora do círculo fechado do presente histórico e do atual, habitando as margens do seu tempo, para sondar aquilo que ora se apresenta apenas como possibilidade virtual aos seus contemporâneos [...]” (QUILICI, 2015, p. 29). Esse ir e vir no tempo aciona memórias e estas são de fundamental importância no fazer o no pensar do que entendo hoje como sendo o Tribal Brasil.          Nesse sentido, a saia passa a ser um fio condutor do tempo entre tantas vozes e corpos femininos que imprimem suas estéticas e poéticas na história da dança.
           

Referências bibliográficas

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2011.

HANNA, Judith Lynne. Dança, Sexo e Gênero. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

PASSO, Patrícia. Fusión: el universo que danza. Madrid: Esteban Sanz Martinez Editorial, 2011.

QUILICI, Cassiano. O ator-performer e as poéticas de ta transformação de si. São Paulo: Annablume, 2015.

SCOTT, Joan. “Gênero: Uma categoria útil para a análise histórica.” Traduzido pela SOS: Corpo e Cidadania. Recife, 1990.

TANAHASHI, Kazuaki. (Org.). Escritos do Mestre Dogen: A Lua numa Gota de Orvalho. São Paulo: Siciliano, 1993.


[1] Disponível em <http://tribalmind.blogspot.com.br/2011/01/ruth-saint-denis.html> , acesso em 15 de mar. de 2017.
[2] Disponível em <http://tribalmind.blogspot.com.br/2011/01/ruth-saint-denis.html>, acesso em 15 de mar. de 2017.
[3] Tradução minha do original: La exótica espiá Mata Hari, empieza su Carrera de bailarina trás su estância em Java. Allí tomo lós primeros contactos com la cultura oriental. De vuelta a Europa, se percató rapidamente de que la experiencia vivida em Indonesia podría servirle como trampolín para entrar em la alta sociedad europea, que carecia del exotismo para transcender la penosa situación econômica. Su mito causa polémica dado que El personaje Mata Hari se asocó más al juego de la seducción, usado como arma política y social, que a la evolición del arte de la danza.


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